Crônica #25 – Dom Henrique do Brasil

O ano era 2014; a cidade, Caruaru; o evento, Encontro Nacional de Jovens (ENJ). Nunca tinha feito tão longa viagem, especialmente sozinho. Não conhecia ninguém, senão virtualmente. Havia, porém, algo que me atraía àquele lugar. 

Desde que soube que o evento ocorreria, eu, que nunca fui afeito à ideias obsessivas, fiz da minha vontade de estar lá quase uma obsessão. Jamais me arrependi dessa pequena loucura. As experiências de fé que tive por lá foram divisores de água na minha vida, na minha fé ainda claudicante. 

Na volta, apesar de alguns contratempos aeroportuários, trouxe, além de grandes amizades, de muita formação, de uma fé amadurecida, uma admiração por algumas personalidades e uma reverência por um bispo. Naquele ENJ conheci o Fernando Gomes, que muito me influenciou em Teologia do Corpo, conheci também o Prof. Felipe Nery, praticamente minha red pill, que abriu meus olhos para a tal da guerra cultural que vivemos (era a primeira vez que ouvia, por exemplo, sobre ideologia de gênero).

Certo momento, no grande centro de eventos, estávamos em um longo intervalo que precedia a Santa Missa. Entrava no recinto uma figura inteiramente vestida de preto. Um ou outro a parava para tirar uma foto. Conforme se aproximava, o solidéu que vestia, que antes aparentava ser preto por culpa do sol, revelava-se violeta. Uma amiga, ao meu lado, chamava-me a atenção, dizendo-me “esse é O bispo”. Num instinto mais turista do que fiel, adiantei-me ao seu encontro, já lançando mão do meu celular para pedir uma foto. Mais alguns instantes e perdia a oportunidade do registro, pois já se aproximava do altar. Ele, caridosamente, atendeu àquele jovem afobado.

A febre do momento era o Snapchat. Lembro-me que ele ficou procurando quem tiraria aquela foto até que percebeu que se tratava de uma selfie. Achou curioso. Revirei meus arquivos na última noite, achei fotos e até vídeos daquele ENJ, mas aquele momento permaneceu registrado por apenas 24 horas.

Na Santa Missa que presidiu, vi um zelo litúrgico sem igual. Seus olhos brilhavam quando falava de Cristo e sua Igreja. Suas palavras eram vigorosas, mas doces. Pregava com convicção. Aliado a isso, um zelo pelas almas e um carinho de pastor. Se tento imaginar uma pregação de Paulo, é a imagem desse bispo que me vem à cabeça. Naquele dia, meus caros, eu posso dizer, conheci um fiel sucessor dos apóstolos. Naquele ENJ, conheci Dom Henrique Soares.

Ele olhava para aqueles milhares de jovens e, mesmo do alto de uma estrutura sob a qual montou-se o altar, parecia falar pessoalmente. Apesar dos anos, uma frase dita naquela homilia até hoje aquece o meu coração: “e quando vocês estiverem velhinhos, com os seus cabelos brancos iguais aos meus, Cristo ainda será novo, fazendo seus filhos e netos se emocionarem”. Cristo estava vivo e falava pela boca daquele seu apóstolo.

Jamais me esquecerei seu olhar. Trazia o cansaço do trabalho apostólico, mas tinha um brilho especial. Era o mesmo brilho que iria ver mais tarde em uma foto de São João Paulo II. Eu só entendi plenamente o que significava quando também mais tarde ouviria uma de suas pregações, onde dizia procurar desde a juventude um causa que valesse a pena. Era um olhar de quem tinha encontrado a Causa que valia a pena viver e morrer.

D. Henrique foi a candeia que não se escondeu debaixo do alqueire. Por meio de sua vocação, levou a luz de Cristo não apenas à sua modesta diocese, mas a um país inteiro de dimensões continentais.

Eu diria ainda que seu papel frente a um episcopado, em termos gerais, morno, é semelhante ao do Pe Paulo Ricardo em relação ao presbiterado. Na falta de padres e bispos ortodoxos, os fiéis, a procura de uma sólida doutrina, encontravam neles um refúgio. Eu o tinha como um pastor, mesmo a milhares de quilômetros de distância. Só esse sentimento para explicar porque meus olhos marejavam.

Se o Pe Paulo é o Vigário do Brasil, certamente D. Henrique é seu Bispo. Se perdemos um grande pastor nesta terra, ganhamos um intercessor no céu que permanecerá zelando pelas almas do seu povo.

Dom Henrique do Brasil, rogai por nós.