O mar, a nuvem e a chuva: um itinerário pela espiritualidade do Carmelo

A espiritualidade da Ordem do Carmo (carmelitas) presenteou a Igreja e o mundo com belíssimos e profundos ensinamentos sobre a vida interior, a união e a intimidade com Deus. A Ordem está sob a proteção de Nossa Senhora do Carmo, daquela que, como ninguém, teve e tem a maior proximidade com o Salvador. Sua história remonta ao século XII, quando eremitas passaram a viver no monte Carmelo, na Terra Santa, e posteriormente, espalharam-se pela Europa. Religiosos de vida contemplativa, os carmelitas tiveram muitos santos em seu seio, como Teresa d´Ávila e João da Cruz (reformadores do Carmelo no século XVI), a querida Teresinha do Menino Jesus, a filósofa convertida Edith Stein, Elisabete da Trindade, Simão Stock…

A Ordem encontra no Profeta Elias sua inspiração. No Primeiro Livro dos Reis, lemos vários episódios de sua história, como o anúncio de uma terrível seca em Israel, sua vida de solidão e oração e seu confronto vitorioso com os profetas de Baal, no Monte Carmelo, no qual um fogo vindo do céu consumiu o sacrifício de Elias, manifestando ao povo o Deus verdadeiro. Logo após, ocorre um belo e emocionante momento: após mais de três anos, a chuva que o povo tanto precisava voltou a cair torrencialmente, pelo agir do Senhor.

“Então, Elias disse a Acab: “Vai, come e bebe, porque já ouço o ruído de uma grande chuva”. Voltou Acab para comer e beber, enquanto Elias subiu ao cimo do monte Carmelo, onde se encurvou por terra, pondo a cabeça entre os joelhos. Disse ao seu servo: “Sobe um pouco e olha para as bandas do mar”. Ele subiu, olhou o horizonte e disse: “Nada”. Por sete vezes, Elias disse-lhe: “Volta e olha”. Na sétima vez, o servo respondeu: “Eis que sobe do mar uma pequena nuvem, do tamanho da palma da mão”. Elias disse-lhe: “Vai dizer a Acab que prepare o seu carro e desça para que a chuva não o detenha”

I Reis 18,41-45

Elias coloca-se em profunda atitude orante. Exortado por sete vezes, o servo do profeta vai até o topo do Carmelo e daí, pode ver o mar, imenso, maravilhoso, majestoso, imagem do próprio Deus, “pois é a partir da grandeza e da beleza das criaturas que, por analogia, se conhece o seu autor.” (Sb 13,5). Quando olhamos para um horizonte assim, nossa atenção certamente se envolve com o mesmo, é uma experiência estética que inspira, toca e acalma. Tal agir remete às orações de meditação e contemplação, tão pregadas pela espiritualidade carmelitana. Nelas, o homem silencia as diversas agitações e atrações do cotidiano, e desse modo, eleva-se, sobe o monte, para buscar a Deus e refletir sobre a sublimidade dos santos mistérios, por meio do pensamento, vontade, imaginação e sentimentos (meditação) e “mergulhar” no mar infinito de seu grande amor, em um olhar de pura fé e de comunhão direta com o Senhor (contemplação). Essas vivências são fundamentais para o aumento da fé e da caridade, fomentado assim, nossa espiritualidade. (Para aprofundamento, recomenda-se a leitura do Catecismo, a partir do §2705)

“Outra coisa não é, a meu parecer, oração mental, senão tratar de amizade – estando muitas vezes tratando a sós – com Quem sabemos que nos ama”

Santa Teresa D´Ávila

Uma segunda imagem da passagem é a da nuvenzinha. Tradicionalmente, ela é apresentada como um símbolo da Virgem Maria. Assim como da minúscula nuvem deu-se início à chuva torrencial e salutar ao povo, do mesmo modo, aquela que durante toda a vida se fez pequena diante do Senhor e dos homens, por meio da humidade, simplicidade, pobreza e silêncio, foi a escolhida para trazer à humanidade nada menos que o próprio Deus Salvador. “Céus, gotejem lá de cima, e as nuvens chovam a justiça; que a terra se abra e produza a salvação, e junto com ela brote a justiça” (Is 45,8). O laço que une os carmelitas à Virgem Maria manifesta-se especialmente por um presente da Mãe do Céu à São Simão Stock: o escapulário. Esse famoso sacramental consagra os que o usam a Ela, protege contra o Male exorta-os à imitação de suas virtudes e passos. Desse modo, a Mãe age nos corações, conduzindo-os de forma ímpar ao seu filho, Jesus, pois ela o acompanhou durante toda a sua missão salvadora e ama-o mais que todos os homens e anjos juntos. A nuvenzinha desencadeou uma abundante chuva. Por Maria, a serva do Senhor, unimo-nos ao seu filho, a Vida em plenitude, quem nos dá “todo o bem e toda a graça” (MR).

Praticando as pequenas virtudes, a Santa Virgem tornou visível o caminho do céu.

Santa Teresinha do Menino Jesus

Enfim, a chuva caia sobre a terra seca. “Visitastes a terra e a regastes, cumulando-a de fertilidade.” (Sl 64,10). Era um dom generoso, que se derramava sem reservas, trazendo vida, alegria e paz àquela gente. Deus também se faz um dom para nós, entrega-se por inteiro e faz-se um com cada coração. Quando fomos batizados, a Santíssima Trindade veio habitar no mais íntimo das nossas almas, pela graça santificante, “derramando-se” amorosamente. “Minha alma está sedenta de vós, como a terra árida e sequiosa, sem água.” (Sl 62,2)

Ó meu Deus, Trindade que eu adoro…pacificai a minha alma; fazei dela o vosso céu, vossa morada querida e o lugar do vosso repouso. Que eu nunca vos deixe só.

Santa Elisabete da Trindade

Como já foi dito, a intimidade com o Senhor é muito divulgada pela espiritualidade carmelitana. A muitos santos, é reservada uma experiência mística descrita por Santa Teresa, como “matrimônio espiritual”, na qual a união com Deus atinge o seu ápice, como que uma antecipação do Céu. Apesar do “matrimônio espiritual” ser uma vivência de poucos, todos são chamados a progredir na comunhão amorosa com a Trindade, que se faz dom preciosíssimo para cada um. Tem-se uma comunhão maravilhosa e nova com o Pai, o Filho e o Espírito. Um luminoso exemplo é o de Santa Teresinha, que pela doutrina da Pequena Via, exorta-nos a portar-nos diante do PaiCelestial como simples crianças, totalmente dependentes, que Dele tudo esperam e se entregam cheias de confiança aos seus cuidados (vale muito a pena conferir seus escritos no livro “História de uma alma”). Caro leitor e irmão em Cristo, é melhor me despedir e silenciar-me, a fim de que que os santos da Venerável Ordem do Carmo falem sobre essa realidade tão sublime e à qual somos todos chamados a participar:

Meus são os Céus e minha é a Terra, meus são os homens, e os justos são meus; e meus os pecadores. Os Anjos são meus, e a Mãe de Deus, todas as coisas são minhas. O próprio Deus é meu e para mim, pois Cristo é meu e tudo para mim.

São João da Cruz

Deus está sedento do amor de suas criaturas. O próprio Deus mendiga por nós. Demo-nos a Ele. Não sejamos mesquinhos, porque Deus é todo bondade e generosidade para conosco.

Santa Teresa dos Andes

“Alma, procura-te em Mim e a Mim busca-me em ti.”

Santa Teresa D´Ávila