Dois papas: Francisco versus Bento XVI?

Estava em dúvida se compraria esta briga ou não e cá estou. Apesar do título, este texto não se trata de uma análise do filme homônimo. Estou aqui não apenas para defender Bento XVI dos progressistas, mas também Francisco dos conservadores. Enquanto aqueles desfiguram Francisco para ser sua bandeira, estes usam de um filtro de má vontade para enxerga tudo o que o Santo Padre faz, fala e escreve. Os primeiros rebaixam Bento para exaltar sua bandeira, os segundos o exaltam para rebaixar Francisco, crendo que assim estarão atacando os primeiros, quando atacam a própria Igreja.

Apesar de não tratar do filme em si, as palavras que seguem tiveram como ponto de partida uma dúvida que uma amiga teve o assistindo. Disse-me ela que no começo do filme, após a morte de João Paulo II, na eleição do novo papa, alguns cardeais e o próprio – e então Cardeal – Bergóglio dizem ser a favor ou trabalhar pela “reforma”. O termo causou-lhe estranheza. Disse-me ainda que o filme tratava o cardeal Ratzinger como contrário à reforma, além de lhe atribuírem a “pecha” de tradicionalista. Sua dúvida era torno dessa reforma, ou melhor, de que ela se tratava. Há um caminho que devemos percorrer para entendê-la ao final.

Como bem devem saber, há uma tendência natural na mídia, no mundo secular – e, por vezes, no católico, infelizmente – de pintar Francisco e Bento XVI como opostos, mutuamente excludentes. O primeiro é o mais popular, sorridente e carismático, com uma visão mais aberta e ampliada, progressista, suscetível a mudanças, que enxerga a Igreja como pertencente aos pobres; o segundo, ao contrário, impopular, carrancudo e antipático, com uma visão fechada, tradicionalista, cheirando a mofo de sacristia, insensível a mudanças, que enxerga a Igreja como pertencente a um pequeno grupo de notáveis.

Também, como bons católicos, bem devem saber que esta é uma visão caricata. Uma caricatura não consiste senão em traçar exageradamente tendências. Se pedisse a algum amigo que sabe desenhar que me fizesse uma caricatura, certamente exageraria nos tamanhos do meu nariz e da minha barriga. Não que sejam imensos, mas suas saliências os fazem ser notados com facilidade. Mas assim como eu não sou – tomara Deus que não seja mesmo – apenas barriga e nariz, também não é somente um amante dos pobres Francisco, tampouco Bento é um obcecado por liturgia, paramentos e hierarquia.

Duas expressões da língua inglesa podem nos ajudar nesta matéria – há um interessante livro do Bispo Barron, grande evangelista americano, que trata do tema, mas que infelizmente ainda não o li. Existe uma diferença entre dizer que “Both Maggie and Julia are going to be hired” e que “Either Maggie or Julia is going to be hired”. No primeiro caso, ambas serão contratadas. No segundo, uma das duas não terá sucesso. Both é usado em sentido positivo, quando mais de uma opção é possível: “Maggie e Julia serão contratadas”; either, por sua vez, é exclusivo: “Ou Maggie ou Julia será contratada”.

A Igreja Católica não é “Either…or”, mas “Both…and”. Ou seja, não é ou a predestinação, ou o livre-arbítrio; ou o carisma, ou a hierarquia; ou as Escrituras, ou a Tradição; ou a intercessão dos santos, ou o único mediador; ou o Antigo, ou o Novo Testamento; ou a unidade, ou a trindade; ou a humanidade, ou a divindade; ou o social, ou o capital; ou o progresso, ou a tradição; ou os pobres, ou a sacristia; mas, em todos esses casos, ambos. A mídia, o mundo secular – e, infelizmente, alguns católicos – tentam encaixar o que acontece na Igreja na perspectiva do “Either…or”. Aqui é o ponto onde podemos convergir os termos da língua inglesa e a caricatura. Ao não enxergar como conciliar (Both…and) a opção preferencial pelos pobres com a hierarquia, acabam por escolher o aspecto que mais se destaca (Either…or). Se em Francisco o que se destacou foi a Igreja em saída, taxam-no como aquele que não dá importância a hierarquia e a liturgia; se em Bento o zelo pela tradição e pela liturgia emergiram à primeira vista, não há como conciliá-lo com a missão e os carismas.

O filme em questão é secular. Não se deve esperar uma visão católica das coisas. Francisco e Bento são opostos, mutuamente excludentes. Há o partido franciscano e o partido beneditino.

O que toda essa lengalenga tem a ver com a pergunta sobre o que seria a reforma desejada pelos partidários de Francisco? A hermenêutica da continuidade é a chave para entendermos a santa reforma e reforma enquanto implosão e reconstrução. Por hermenêutica podemos dizer a forma de interpretar. Por contínuo, entendemos algo que não é dividido em sua extensão, ou que não é interrompido dentro de um tempo estipulado.

Em uma audiência geral no final do ano de 2005, quando fazia menção a alguns acontecimentos daquele ano. O então romano pontífice Bento XVI, entre os assuntos, comenta sobre o quadragésimo aniversário de encerramento do Concílio Vaticano II. Referindo-se a ele, fala sobre os problemas em sua recepção – comuns aos concílios – e sua causa. Foquemos nesta para precisá-la, deixando aqueles para uma hora mais oportuna. A razão dos problemas pós-conciliares, na visão de Bento XVI, estava no fato de que duas hermenêuticas – lembrem-se, forma de interpretar – contrárias se embateram e disputaram entre si. Seriam elas a da descontinuidade – ou da ruptura – e a da continuidade – ou da reforma. A primeira pretendia, no espírito anticatólico “Either…or”, causar uma ruptura entre a Igreja pré-conciliar e a Igreja pós-conciliar, como se a partir do concílio uma nova igreja devesse emergir, rompendo os laços com a Tradição, revendo seus valores e se abrindo, sem medidas, ao mundo moderno. A segunda, nas palavras do Santo Padre, é a hermenêutica “da renovação na continuidade do único sujeito-Igreja, que o Senhor nos concedeu; é um sujeito que cresce no tempo e se desenvolve, permanecendo, porém sempre o mesmo, único sujeito do Povo de Deus a caminho”. Bento a chama ainda de hermenêutica da reforma. Curioso, não?

Uma reforma não pressupõe a construção de uma nova casa, mas algum tipo de mudança com fins de aprimoramento e certa adequação ao contexto atual. Não sei se na tua terra acontece isso, mas por aqui muitas e comércios abandonaram a fechada tradicional, optando por uma mais contemporânea. Lembro-me quando telhados caseiros com várias águas viraram moda. As casas deixaram de ter formato triangular, passando para um formato semelhante a letra grega λ e suas variações. Hoje, as construções parecem optar por formas mais retangulares, mas irregulares – como uma parede mais alta do que o telhado apenas para fazer charme. A reforma me parece, de certa forma, pressupor que os fundamentos da casa sejam mantidos, ainda que seus aspectos mais exteriores sejam, também de certa forma, modificados. O que os partidários de uma hermenêutica da ruptura entendem por reforma é na verdade uma destruição seguida de uma reconstrução, o que não faz sentido algum. A esperança deles era que Francisco fosse esse reformador, que finalmente interpretasse o concílio da maneira como interpretam. Caíram do cavalo. Francisco é tão católico quanto Bento. Este é o problema do catolicismo: ele abarca o todo. A raiz etimológica de “católico” é universal, que abraça o todo. A mentalidade contemporânea não consegue enxergar isso porque se apega a recortes, a partes, a partidos. Se conseguem associar um aspecto a um partido, já associam-no ao partido sem titubear. É como se vissem o bico de um ornitorrinco e pensassem pertencer à classe das aves. Tentam vendê-lo como uma ave, mas o problema é que na hora H serão surpreendidos por ser, na verdade, um mamífero. É o que acontece com Francisco. Tentam vendê-lo como reformador, quando é conservador. Mas não é conservadorista, se assim posso dizer. Ele entende que não há o que conservar sem que haja algum progresso. Ele é profundamente litúrgico, mas sabe que a liturgia pede uma assembleia que dela participe. Tentam vendê-lo como progressista, modernista, liberal, comunista, porém, surpreendem-se quando descobrem que ele é genuinamente católico.