Crônica #24 – O oratório

Antes de casar, sonhava em ter um oratório. Queria ter um canto da casa em que pudesse ter um altar, imagens de santos, uma cruz, uma bíblia. Sonhava alto. Pontiagudos oratórios góticos estavam na minha mira. Sobre o altar certamente haveria uma grande e individual imagem de São José, outra ainda maior da Virgem Maria. Além, é claro, da imagem da Sagrada Família e de um grande crucifixo. Antes mesmo de alugarmos o apartamento em que moramos, cheguei a olhar os preços de genuflexórios de madeira, com encosto almofadado, forrado de damasco.

Naquele oratório também montaria, junto à minha esposa e futuramente nossos filhos, um presépio no decorrer dos adventos, colocando um a um a gruta, os animais, os pastores, os magos, a Virgem e seu esposo, a manjedoura e, por fim, no dia que celebramos seu nascimento, o menino Jesus.

Não sonhava baixo, aspirava por um local acolhedor onde pudéssemos individual e, por que não coletivamente elevar nosso coração a Deus. Um ambiente onde algum dos nossos amigos padres pudesse celebrar a Eucaristia em casa, onde pudéssemos em um só coração e uma só alma elevar nossas preces unidos aos nossos familiares e amigos.

Queria poder dizer que hoje, pouco mais de oito meses depois do casamento, boa parte do oratório já estivesse de pé. O que tenho a dizer, porém, é que não só não está de pé, como também está longe de ser finalizado. As imagens que temos são pequenas e estão dispersas. Não há um altar. A escrivaninha, que mais se assemelhava a um lugar devocional, hoje é ocupada por dois monitores e uma CPU para o trabalho remoto desses dias de quarentena.

O preço do genuflexório o fez ficar ainda mais distante. Não posso dizer que faltam imagens da Sagrada Família em casa, estão presentes em metade dos cômodos, entre balcões e criados. O crucifixo já esteve em muitos lugares. Começou hasteado em um prego acima da caixa de força. Foi o primeiro, e por algum tempo, o único objeto da casa. Desde então, já passou pela já referida escrivaninha e também pela sapateira onde improvisadamente guardo parte dos meus livros. Agora está em uma das repartições da estante da sala. Olhando para ele me recordei da minha vontade de ter um oratório completo e olhando para ele percebi que de alguma forma, ou ainda, de uma melhor forma já o tinha obtido.

Aquela cruz que deveria estar no centro do oratório estava de alguma maneira – ou de melhor maneira – presente em cada afazer doméstico que exigia a renúncia espontânea da própria vontade. Faltam as grandes imagens marianas, sobram imagens reais da minha esposa cuidando de cada detalhe doméstico, ainda agora durante a gestação, esforçando-se para deixar todas as coisas limpas e arrumadas, tornando nossa casa um lar. Sobram também recordações de que, à maneira de São José, tinha uma família para sustentar. Todos os dias quando pareço desanimar no trabalho, a imagem do carpinteiro, chefe da mais santa família que já houve, me vem e revive a esperança de imitá-lo.

Podemos não ter um local destinado a acolher a oração dos nossos familiares e amigos, mas não conseguimos entrar em um cômodo sem não enxergar algo deles. Poucos são os móveis e eletrodomésticos que não são presentes seus. Mesmo sem um oratório, o trecho de Atos que se refere à primeira comunidade parece estar escrito nas paredes: todos os fiéis viviam unidos e tinham tudo em comum. Um só coração, uma só alma.

Ainda não temos o altar do oratório, mas na mesa da cozinha ou da sala de jantar consagramos o nosso pão de cada dia, em cada refeição. Ainda não temos o altar do oratório, mas no nosso leito o amor enquanto doação está formidavelmente presente. Há pouco menos de oito meses, inclusive, esse amor se encarnou. Nossa imagem do Deus Menino hoje está ventre da Lê.

No primeiro Natal juntos, infelizmente acabamos não montando um presépio no decorrer do Advento. Uma pequena imagem do Menino e de seus pais era tudo o que tínhamos. Para o segundo Natal, contudo, já estamos nos preparando. Novamente, a maioria da mobília é presente. As paredes da gruta foram pintadas. Trocamos os puxadores da cômoda que ganhamos, dando a ela aspecto infantil. Como o genuflexório do oratório, um papel de parede para a gruta também estava fora do orçamento, mas com alguns adesivos fizemos o nosso. A manjedoura também chegou. Desmontada, mas já está de pé. Parece que os reis magos se adiantaram porque o menino já tem mais do que ouro, incenso e mirra. Mesmo fora de época, no final de junho teremos o nosso Natal, e, na espiritualidade do presépio, nosso Bernardo assumirá seu lugar na manjedoura.

Queria que tivéssemos um canto destinado a oração, mas hoje, olhando para nossa casa não consigo enxerga um canto que não faça ecoar dentro de mim sursum corda – corações ao alto.